Esse blog foi criado pelos alunos do professor Ricardo para divulgar os rascunhos literários.
Se desejar fazer parte, deixe uma mensagem com um exemplo do seu texto.
________________________________________________________________________
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Um conto de Natal - Alvaro Freitas


—Canário da terra macho!
—Desculpa... O que o senhor disse?
—Esse canto é de um canário da terra macho. Eles nascem em Minas, depois migram para essas bandas e só voltam para procriar na primavera.
—O senhor sabe de tudo isso só pelo canto? Eu nem ouvi!
—Eu observo muito. Modéstia a parte, tenho um ouvido e uma memória muito bons.
—O senhor é especialista em aves? Como se diz...
—Ford Corcel 1972, pneus Firestone meia vida. A correia tá na hora de trocar!
O garoto olhou para os lados para ver com quem ele estava falando. Mas além deles, naquela sala de espera, só tinha a secretária do delegado.
—O senhor falou comigo?
—Eu falei do carro que passou lá na rua e entrou na Praça Luiz Prestes sentido Marginal. Eu não consigo evitar!
—Só pelo barulho o senhor concluiu tudo isso?
—Pois é! É um dom que Deus me deu e eu aperfeiçôo a mais de 40 anos.
—Caramba!
—E não é só o meu ouvido não! Tá sentindo esse cheiro?
—Parece que é café.
—Três colheres de café Pilão e uma de Três Corações.
O rapaz ficou sem palavras, então o velho ajeitou o paletó xadrez, deu uma alinhada na gravata borboleta e continuou:
—Alguém colocou o resto de pó de Três Corações e completou com Pilão.
—Ou o contrário!
—JAMAIS! — vociferou. — O cheiro do Pilão é de que acabou de ser aberto, já o outro, tem cheiro de que foi aberto a quatro dias.
—Benza Deus! Isso sim é um dom!
Subitamente a porta da sala do delegado se abriu e um homem saiu apressado, deixando apenas um sinal de positivo para a secretária.
—Latrocínio!
—O senhor o conhece?
—Deus me livre!
—Então como é que...
—Calça larga, pisando mais forte com o pé direito. Até uma criança pode perceber que ele tem o costume de carregar uma pistola nove milímetros na bota.
—Mas ele nem estava de bota!
—Nem com a nove milímetros! Por isso ele tava mancando. Falta de costume de andar desarmado.
—E como o senhor sabe que é latrocínio?
—Saindo com essa pressa da sala do delegado. Claro que ele matou alguém. Aliás, eu investigaria muito bem a secretária. Você viu o olhar dela quando ele saiu?
No telefone a secretária disse:
—Doutor, o técnico acabou de sair. O senhor já pode usar seu computador. Inclusive, já têm duas testemunhas aguardando para o depoimento.
Sem graça, o velho olha para o rapaz e diz:
—Tá vendo? Mais um meliante que se safou. Belo disfarce!
Tentando dissimular a risada, o rapaz muda de assunto.
—O que o senhor vai testemunhar?
—Na noite de segunda, eu tava dormindo quando fui acordado por um tiro a um quarteirão da minha casa. Dois minutos e quarenta segundos depois passou um Chevette 82 com um homem gordo que dirigia sozinho e levava uma caixa grande com um disfarce dentro do porta-malas.
—“Péra” ai! Como o senhor viu tudo isso?
—Não vi. Nem saí da minha cama. Eu ouvi!
—Até o disfarce no porta-malas?
—Pois é!
—E então, o que o senhor fez?
—Vim aqui e contei tudo. No dia seguinte, a Polícia encontrou o carro e o disfarce, montaram uma emboscada e prenderam o vagabundo.
—E ele, confessou?
—No começo não. O safado insistia que o disfarce era para surpreender os filhos. Depois de passar a noite pendurado tomando choque, ele confessou.
Então o delegado chegou, falou com a secretária e entrou na sala.
—Senhor Barbosa, testemunha de acusação do caso do Papai Noel. Pode entrar.
Ele respirou fundo, arrumou o cabelo e a gravata, levantou e disse:
—É meu filho... É graças a homens como eu que esse país ainda é um lugar bom para se viver! Tenho um trabalho a terminar; com licença.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Chiaroscuro


Seis da manhã com a barriga na pia molhada, ele não pôde resistir e provou uma colherada do feijão gelado que cuidadosamente usava para abastecer a velha marmita amassada. — Há!! se inventassem alguma coisa que impedisse o meu feijão de azedar até a hora do almoço... — Com a dedicação e o carinho de uma mãe que prepara o almoço do filho, o pobre trabalhador se preparava para mais uma jornada.
—Bom dia seu Zé!
—Bom dia senhora. — Respondeu esboçando um sorriso tímido ao chão que a vizinha pisava.
—Dá tchau pro moço! — O menino parecia saber algo que a mãe ignorava. Abraçou o pescoço da mulher e escondeu o rosto.
—Esse menino é tão caipira!
Seu Zé curtia seus últimos instantes de visibilidade. Sabia que ao vestir aquele macacão alaranjado algo como uma mágica aconteceria. Como Harry Potter em sua capa de invisibilidade, ele, sua vassoura e sua pá deixariam de ser vistos por olhos humanos. A magia só não era completa pelo fato das pessoas desviarem dele, dando sinal de perceber sua existência. Essa percepção não era importante o suficiente para tirar um sorriso ou um — bom dia — de ninguém. Mas isso não importa. Vinte anos nessa vida era suficiente para fazer qualquer um se acostumar. — Esse macacão é para mim, como o insul-filme para os tubarões que aguardam o farol abrir.
Entre uma sujeira e outra que pernoitaram a sua espera no meio fio e um copo de papel sujo que lhe saltou à frente quase lhe acertando a perna, seu Zé fazia seu trabalho. Por força da profissão, seu horizonte se limitava a um metro de calçada a sua volta, como se aquele fosse o seu reino, o seu império. De repente, uma poça de água refletiu as pernas bronzeadas de alguma garota. De imediato, o coração do pobre trabalhador disparou. Sua respiração acelerou e tomando de todas as suas forças, o nosso herói largou a vassoura e deu alguns passos apressados em direção ao muro. — Maravilhoso o poder que esse uniforme me concede! Isso teria sido constrangedor se alguém tivesse visto!
As vozes foram diminuindo, outras diferentes vieram. Aparentemente o perigo havia passado. Seu Zé tirou os olhos do muro, analisou cuidadosamente seu universo e pegou a vassoura que havia largado na sarjeta. O surrado crucifixo pôde voltar em paz para o bolso.
Ao retornar o seu trabalho, notou novamente a poça. Dessa vez, parecia inofensiva, salvo o cigarro meio fumado que boiava em um canto. Ele se abaixou, tomou a bituca nas mãos e a examinou como que investigando um crime hediondo. Ela ainda parecia quente, devia ter sido jogada naquela hora. A marca denunciava o batom carmim da sua dona.
—Só pode ter sido deixado por aquela vagabunda, aquela... — Antes de continuar a frase, a guimba lançada ao meio da rua deu lugar ao crucifixo que voltou apressado do seu bolso, como um bombeiro a acudir a um chamado de incêndio. Com toda a fé do mundo, seu Zé, o beijou três vezes e se prostrou de joelhos diante da multidão que passava.
Visível o suficiente para não ser pisado e invisível o suficiente para não incomodar os pedestres da Paulista, o nosso translúcido nordestino aproveitou para fazer o almoço. A marmita vazando e a comida fedendo não o surpreendiam mais. Aquele banquete em frente ao MASP era um privilégio de poucos.
—Nada dignifica mais um homem do que um bom e rotineiro dia de trabalho!

domingo, 1 de agosto de 2010

A ave do paraíso - Alvaro Freitas

Após uma longa espera, estava finalmente a caminho do tão merecido repouso. Uma casa no meio de uma chácara tão grande, que mesmo se estourasse a terceira guerra mundial, eu não tomaria conhecimento. Em uma montanha tão alta, que estando na ponta dos pés, quase era possível ouvir os sussurros dos anjos. Distante da humanidade o suficiente para nunca mais ter que ouvir nenhuma falsidade. Por outro lado, perto o suficiente para que em uma hora de carro, pudesse fazer as minhas compras e sacar a aposentadoria.
Caminhonete abarrotada até o teto com a mudança. Calor a ferver os miolos. O velha Ford precisava de um descanso. Mais do que uma sombra de árvore, precisávamos de um posto de serviço com gasolina, banheiro e uma cerveja gelada. No horizonte, detrás de uma muralha de pó, surgia algo que lembrava um posto de combustível.
—Prá morrer de sede, morro intoxicado!
Tinha uma bomba de combustível, um caminhão em estado de putrefação e um barraco, que com um pouco de criatividade, lembrava uma loja de conveniência.
—Olá! — gritei.
Quisera ter ouvido ao menos o eco me responder, mas ia ecoar aonde?
—Olá! Alguém? — fui me afastando do carro em direção à loja.
Chegando a porta da loja, deparei com uma espreguiçadeira com um velho morto. Morto também não, mais tão prestativo quanto se estivesse. Pela porta de tela, tive a maravilhosa visão de uma geladeira com uma marca estranha de cerveja na porta.
—Senhor!?
“É, está morto sim!” — pensei.
Fui até a geladeira e me servi da primeira garrafa que vi. Ela estava sedutoramente suada. Quando estava prestes a sair:
Três e cinqüenta! — alguém gritou com voz esganiçada.
Olhei para o velho. Tão morto quanto antes.
—Olá! Para quem eu pago? – perguntei como que para as paredes.
Deixa no balcão! — respondeu.
Cheguei mais perto do pré-cadáver e notei que ao seu lado tinha uma gaiola com o pássaro mais lindo que já havia visto.
—Só tenho nota de cinco! — disse só para ver de onde viria a resposta.
Pega o troco de bala! — disse o pássaro.
“Eu não podia acreditar. Treinaram o pássaro para tomar conta da loja.” — Pensei indignado.
—Com licença! — disse um jovem à porta. — Vai abastecer?
—Vou sim! Completa o tanque e verifica a água e o óleo.
—Com prazer.
Passado o delírio, sai atrás do jovem em direção a bomba.
Três e cinqüenta, SAFADO!
Deixei os cinco sobre o balcão e sai apressado, como que fugindo de uma alma penada.
—Quem ensinou aquela ave a falar? — perguntei ao garoto.
—É a “ave do paraíso” do vovô. Ela não fala não! Por quê? — perguntou intrigado.
—Nada, pensei ter ouvido.
Mais duas horas de viagem, finalmente cheguei na casa que seria meu derradeiro endereço. Silêncio e paz. Era tudo que eu queria. Ninguém mais para me enganar, nem me roubar. Definitivamente desisti das pessoas.
Durante toda a minha vida, somente deparei com pessoas aproveitadoras e desonestas. Nunca constituí família. Meus pais me abandonaram em um orfanato enquanto era um bebê. As pessoas que mais dediquei confiança, foram as que mais me traíram.
—Chega, agora sou só eu e Deus!
Apesar de toda a carga, alguns detalhes haviam faltado. Durante a semana preparei uma pequena lista, e no sábado, fui até a cidade pegar o faltante.
A história da ave não me saía da cabeça. Claro que ela falou comigo! Eu não estava louco!
Foi então que decidi voltar lá. Passei no posto e deixei o garoto abastecendo enquanto entrei na loja sob o pretexto de uma cerveja gelada.
Lá estava o velho dormindo de boca aberta e a ave me encarando.
—Bom dia amigo! — cumprimentei cismado.
Fala ai tio! — disse o pássaro.
Tentando bancar o menos idiota possível, decidi fazer uma pergunta mais complexa para ter certeza de que ele só havia sido treinado a responder o básico.
—Esse senhor é seu dono? — perguntei olhando-a nos olhos.
Não! É o meu funcionário. — respondeu. — É meio velho mas mantém minha gaiola limpa e minha água e comida sempre fresca.
—Você confia nele?
Não sou louco de confiar nos seres humanos.
—Sabe, sinceramente, nem eu. Eu desisti. São todos uns canalhas...
Subitamente, o rapaz entrou na loja.
—Mais alguma coisa que eu posso fazer pelo senhor? — indagou o frentista.
—Eu gostaria de comprar o pássaro.
—Ele é do vovô. Pergunte a ele!
Com carinho, o neto acordou o velho.
—Vovô, esse senhor gostaria de comprar a “ave do paraíso”!
O velho bocejou e coçou os olhos como se estivesse dormindo a anos. Ele me olhou e disse.
-Ele só é bonitinho. Se pensa que pode ensinar algum truque, esquece!
—Ele fala?
—Você deve estar querendo um papagaio. Eu posso conseguir um que canta o hino do Corinthians.
—Eu quero esse.
—Mas não fala!
—Quanto custa?
—Cinco mil!
—É meu!
E assim foi. Pela primeira vez em toda a minha vida eu tinha um amigo de verdade. E pela primeira vez, eu passei alguém para trás.
—Onde já se viu. Cinco mil e eu comprei o mais inteligente dos animais. Um profeta talvez. A idéia do profeta trouxe um arrepio sobrenatural a minha espinha. Então, me virei para ele, que estava no banco ao meu lado e perguntei.
—Você fala em nome de Deus?
Em silêncio ele consentiu. Então fomos em silêncio a viagem toda. Talvez pelo estresse da viagem ele parou de falar, apenas respondia sim ou não com a cabeça. Por semanas o nosso relacionamento foi apenas por gestos. Ele não me disse mais uma palavra sequer. Porém, o jeito com que me olhava, era o suficiente para esclarecer todas as dúvidas e anseios de toda a minha vida. Até que cogitei a hipótese de o poder de fala dele, de alguma maneira estar atrelado ao velho do posto de combustível.
Eu havia jurado para a ave e para mim mesmo que jamais falaria com mais nenhum homem. Mas a situação necessitava uma medida enérgica, então, deixei a gaiola bem abastecida e voltei a loja.
Ainda da estrada, pude ver uma estranha movimentação no posto. Uma viatura da polícia e uma ambulância. A tranqüilidade dos paramédicos me assustou. Estacionei de qualquer jeito e corri até a loja.
—O que aconteceu? — perguntei ao Policial.
—O ventríloquo morreu!

domingo, 16 de maio de 2010

Era uma vez... - Alvaro Freitas

Era uma vez, em um reino muito distante. No tempo em que os Dragões eram raros e viviam às margens da sociedade, escondidos nas trevas e sozinhos com o seu destino. No morro mais alto, cercado pela floresta mais sombria e infestada pelas criaturas mais assustadoras, jazia o Castelo dos Gemidos. Por séculos, tudo o que se sabia sobre aquele castelo não passava de lendas e superstições. Nenhuma história que fosse digna de ser considerada verdadeira era contada sobre os arredores da Floresta dos Mortos, onde ficava o castelo. Porém, nos últimos dias uma notícia repercutiu no vilarejo como fogo na palha. A notícia de que a Princesa Daiu, do reino de Booksfield estava na torre mais alta do castelo.
—Booksfield? Princesa Daiu? Onde fica isso?
—Eu vou embora e você vai ter que dormir sem história.
—Foi mal! Manda bala...
Logo a história chegou aos ouvidos do Príncipe. Sabendo que o reino dele era o mais próximo do Castelo dos Gemidos, sentiu-se na obrigação de ir até lá.
—Eu preciso da minha armadura e de minha espada. Escolha também o melhor cavalo do reino.
—Mas senhor!? Dizem que um enorme dragão vive naquele castelo e ninguém nunca voltou de lá para contar exatamente como ele é, exceto...
—Exceto quem?
—Ninguém. Deixa para lá.
Com a força de um único braço, o Príncipe ergueu seu fiel súdito quase até o teto.
—Diga logo bastardo. Quem conheceu o castelo e sobreviveu?
—O Juca Louco. Mas ele não é confiável, senhor.
—Pois selem mais um cavalo e ordenem a esse plebeu que me acompanhe.
Logo pela manhã, o destemido Príncipe, acompanhado pelo fanfarrão da vila, partiram para a vossa aventura. Cavalgaram o dia inteiro por entre árvores secas e petrificadas e pântanos assombrados. Parecia que sob cada rocha, havia um par de olhos a espreitar, aguardando a chegada da noite para atacar.
—Sir Juca. Conte-me tudo que sabe sobre o castelo.
—Eu sei muito pouco senhor. As pessoas na vila aumentam as minhas histórias.
—Então me conte o que sabe!
—O tempo em que os dragões povoavam a terra acabou a muitas gerações, porém, eles haviam construído um imponente castelo nessa floresta, em um local tão difícil e perigoso que até então, ninguém jamais ousou perturbar.
—E o dragão, ele existe mesmo?
—Existe! Ele é o último da sua espécie.
—E o que aquela idiota de cabelinho vermelho foi fazer lá?
—Mulher adora aparecer. Deve ter ido lá para fazer alguma maldade pro bichinho.
—Nós temos que chegar o quanto antes e salvar aquela pobre criatura das garras daquela besta de olhos verdes.
Assim os nossos heróis continuaram cavalgando. Durante o dia sob o escaldante sol, e durante a noite sob os olhares ameaçadores das feras.
—Maldita seja a lerdeza desse Príncipe. Há quase uma semana que eu o espero. Já estou fedendo a dragão. O povoado todo já sabe sobre a “Princesinha” na torre do castelo com o dragão e o Príncipe, vai saber, deve ter virado sapo por aí. Se demorar mais um dia, eu pego o meu dragão e vou atrás de outro ricaço.
A situação estava se agravando no castelo. A Princesa era capaz de tudo para conseguir poder, fama e dinheiro. O dragão temia pela sua própria vida.
—Eu vivo nesse castelo por mais de trezentos anos. Tenho me mantido afastado de encrencas desde então. O máximo que eu faço é emitir alguns ruídos durante a noite para afugentar curiosos. Eu tenho que quebrar esse paradigma de que dragão é mau, come campesinos, solta fogo pelas ventas. Caramba! Uma vez que me queixei da gastrite, associaram queimação no estômago com uma arma letal. Quando o ser humano vai aprender o que é metáfora?
—Para de resmungar jacaré! Eu tenho que ouvir quando o Príncipe chegar.
—Eu não vou deixar você fazer mal algum ao Príncipe. Eu o defenderei com minha própria vida se for preciso.
—Cala boca “Tic-tac”. Mais cedo ou mais tarde uma megera iria fisgar o coraçãozinho do tonto e torrar todo o seu dinheirinho. Que seja eu. Vai ensaiando a cara de mau.
Enquanto o clima esquentava no castelo. Sem saber do perigo que o esperava, os nossos heróis se aproximavam, armados e prontos para qualquer tipo de assalto, menos o velho e eficiente golpe da barriga.
—Opa! Espera aí! Tem criança no recinto! Se a história ficar picante eu chamo a mãe.
—Pivete desgraçado. Eu fico aqui contando historinha para o irmão dormir e ainda levo bronca. Pega leve!
—Anda logo! Ai o Príncipe chega ao castelo e...
E percebeu a batalha de morte entre a Princesa e o dragão. De um lado, a Princesa com uma espada, do outro o dragão com uma cadeira.
—Estranho! Não era essa cena que eu imaginava.
Ao perceber a presença do Príncipe, a luta tomou outra dimensão. E o dragão começou a agitar a sua enorme cabeça com a Princesa entre os dentes.
—Príncipe, pega a Princesa enquanto eu cuido do dragão. — Comandou o escudeiro.
Em uma ação orquestrada, a Princesa foi arrancada da boca da fera. Enquanto o Príncipe esmurrava a cara da Princesa, o Juca Loco oferecia água ao dragão para tirar o mau gosto da boca.
—MANHÊ! O Pedro tá zoando com a história!
—Tô não mãe! Esse moleque que é um bitolado.
—Quietos vocês dois. Termina logo essa história e já para a cama!
Enquanto o Príncipe e a Princesa rolavam no chão. O Juca Louco agarrou o dragão pelo braço e saíram em disparada, se assegurando de ter deixado as portas do castelo bem trancadas.
Por muitos anos, os habitantes dos dois povos choraram a perda dos seus entes queridos, que desde a trágica batalha, jamais foram vistos.
—E o Juca e o dragão?
—O Juca arrumou um disfarce para o dragão e passaram a viver no vilarejo.
—Ninguém percebeu o disfarce?
—Perceber, perceberam, mas se começassem a tirar as máscaras de todo mundo, seria pior para todos.
-E aí?
Viveram felizes para sempre. FIM. 

domingo, 2 de maio de 2010

O Corsário Negro - Alvaro Freitas

Calmaria. Por esses lados do mar do Caribe, isso nem de longe é sinônimo de paz. Pode ser de silêncio, mas não de paz. As velas relaxam e adormecem, enquanto o olhar da tripulação enerva e se atenta aos céus e ao horizonte. Nem um mínimo movimento. As ondas se perdem, junto com a paciência dos marujos.
Cada qual procura uma tarefa nova. Já não há mais lemes para comandar, nem velas para subir ou recolher, tampouco estrelas para se guiar. Elas permanecem lá, no mesmo lugar do céu, assim como o grande veleiro jaz no mesmo ponto do imenso mar. Suspiros são ouvidos por todos os lados de proa à popa, vozes não. Até o pano molhado que lambe o convés ansioso por um pouco de pó para limpar, se move silencioso para lá e para cá nas mãos do... da...
—MARINHEIROS!! RATOS IMUNDOS, IMBECIS, O QUE É ISSO?
—Isso o que capitão? Um monstro marinho? Uma sereia?
—NÃO NO MAR, SEU PORCO FEDORENTO. LÁ, ESFREGANDO O CONVÉS.
—É a Matilde, nossa cozinheira. Como estamos com pouco serviço, vários homens foram ajudar com os alimentos e ela veio limpar o...
—MATEM-NA!! CORTEM-LHE A CABEÇA E FAÇAM-NA ANDAR NA PRANCHA!
—Mas capitão. Sem cabeça ela não poderá caminhar na...
—ESTÁ QUESTIONANDO A MINHA ORDEM, SEU COMEDOR DE LIXO?
—Não senhor capitão. É que como não tem ninguém por perto, achamos que não teria problema se ela saísse um pouco para tomar sol.
—POR UM MILHÃO DE SERPENTES MARINHAS. QUANTAS VEZES TENHO QUE FALAR QUE SOMOS UM NAVIO CORSÁRIO? TEMOS NOSSA REPUTAÇÃO. NINGUÉM PODE SABER QUE TEMOS UMA MULHER A BORDO.
—Capitão, a Matilde nem parece muito uma mulher. O Barba-negra, se raspasse a cara, seria mais feminino que ela.
—Matem a Matilde! — Gritavam os piratas enfurecidos. — Joguem-na aos tubarões.
—Capitão, ninguém viu nada. E mesmo que tivessem visto, muitos navios levam mulheres a bordo.
—NÃO O CORSÁRIO NEGRO. O MAIS TEMIDO DE TODOS OS MARES.
—Senhor! A nossa fama de valentes piratas não será afetada por uma mulher.
—NÃO SOMOS PIRATAS, SEU VERME BEBEDOR DE RUM. SOMOS CORSÁRIOS. NÓS MATAMOS, DESTRUÍMOS E SAQUEAMOS POR UMA BOA CAUSA. E NÃO DEIXAREMOS QUE UMA MULHER SUJE A NOSSA REPUTAÇÃO.
—Por favor, eu imploro. Matilde é muito importante para nós. Eu prometo que ela nunca mais verá o sol nem as estrelas, mas não a mate.
Matilde, sentada ao chão junto ao mastro observava seu julgamento como que se divertindo. Parecia que ela sabia que eles não a poderiam matar.
—DESSA VEZ NINGUÉM VIU. E DA PRÓXIMA?
—Não haverá próxima Capitão. Eu prometo!
—MATEM-NA E ESPALHEM O SEU SANGUE PELAS VELAS. ASSIM, TODOS SABERÃO QUE O CORSÁRIO NEGRO NÃO ADMITE NENHUM COMPORTAMENTO ESTRANHO.
Assim foi feito. Matilde foi morta. Seu corpo foi retalhado e lançado ao mar. Seu sangue foi espalhado pelas velas.
Ao ser lançado o último vestido ao mar, como que por milagre o vento voltou a soprar, trazendo a tranqüilidade que somente um bom dia de trabalho pode proporcionar.
—Capitão, já podemos avistar o porto onde o Rei e todo o povo nos aguarda para receber a parte deles das fortunas que saqueamos.
—ÓTIMO. MAS LEMBRE-SE, NEM UMA PALAVRA SOBRE O OCORRIDO!
—Capitão, temos um problema.
—FALA LOGO, VELHO BASTARDO!
—As velas, o sangue, a chuva... é que...
O Capitão, olhou imediatamente para cima. Removeu o tapa-olho. Tirou o chapéu e olhou para as velas, com mais espanto do que no dia em que viu sua perna ser arrancada por uma orca assassina.
—É capitão — disse o imediato entristecido. — As velas ficaram pink!
—NÃO REPITA ISSO OU EU O ATIRO AOS MONSTROS DO MAR!
—Rosa?
—CORTEM-LHE A CABEÇA!!
—Vermelhinho claro?
—MARINHEIROS. TODOS AO CONVÉS.
Toda a tripulação se reuniu atenta às ordens do Capitão.
—DIANTE DAS IRREFUTÁVEIS EVIDÊNCIAS, DEVEMOS NOS PREPARAR PARA UMA BATALHA. EMPUNHEM VOSSAS ESPADAS PARA DEFENDER A NOSSA HONRA. MATEM, MORRAM SE PRECISO FOR, MAS NÃO DEIXEM VIVA ALMA QUE OUSE ZOMBAR, COMENTAR OU ATÉ MESMO OBSERVAR AS NOSSAS VELAS, digamos, diferentes.
Eles nem imaginavam que a maior e mais terrível das batalhas estaria por vir.
Boa sorte Capitão e que Deus tenha piedade do Corsário Negro!

domingo, 11 de abril de 2010

Skaz - Alvaro Freitas

Festa! Aquilo estava horrível como todas as festas costumam ser. De repente chega aquela criatura. Ele fica lá, plantado na entrada do salão como um idiota querendo dizer: “Olha gente, eu estou aqui!”. Ridículo. O pior não foi isso, todo mundo na festa parou e ficou olhando para ele como se nunca tivessem visto um cara grande com cérebro pequeno. Eu não dou a mínima! O que me aborreceu foi a Virgínia. Eu levei ela àquela festa horrorosa, estava lá agüentando toda aquela chatice, firme, do lado dela, e ela, ao primeiro babaca que chega, fica lá babando. Ainda, se o cara tivesse algum talento, vai lá... Mas não. Se usar camisa apertada fosse talento, ele até que poderia dizer que tem algum. De uma hora para outra, depois de babar muito, ela, cinicamente, se vira para mim e diz: “Eu conheço ele de algum lugar!” A Virgínia tem o costume de só porque teve um namorado retardado, achar que conhece todos. Ai, como se não tivesse outro lugar no universo para ir, o ostrogodo resolve vir em nossa direção. Maldita hora. Maldita festa. Maldita criatura. A tonta lá, olhando aquela coisa disforme desfilar. No que o babaca passa na nossa frente, olha para ela e diz: “Oi Virgínia!”. Oi Virgínia... Só podia ser um analfabeto mesmo. Não tinha nada melhor para dizer do que: “oi Virgínia”? Claro que não! Devia ter usado todo o vasto repertório naquela frase. E olha que a metade do repertório era uma monossílaba. Ela só faltou tirar a camisa e esfregar os peitos na cara do gorila. Foi ridículo! Ainda por cima, teve a coragem de sorrir e responder com o “oi” mais vulgar que eu já ouvi em toda a minha vida. “Vai lá e dá logo pro cara!” falei. Ela, nem me ouviu, também, para ela não tinha mais ninguém na festa, só faltava bater as asas e sair cacarejando atrás dele. Que humilhação! Como pode alguém se rebaixar a esse ponto? Eu conheço muito bem as mulheres, se eu tivesse dito alguma coisa, ela iria dizer que eu era um exagerado. Exagerado! Eu? Pena que não filmei aquele “oi”. Aquilo sim me daria um Oscar na categoria baixaria. Quer saber? Eu não vou é falar nada! Em compensação, não vá ela pensar que eu vou ficar feliz da vida ao lado dela. Eu não! Ela vai ter que aprender que mulher minha não fica galinhando por ai. Oi. Só me faltava essa!

sexta-feira, 2 de abril de 2010

seu Barbosa e dona Roma – o celular - Alvaro Freitas


—ROMA, onde você colocou o meu celular?
—Eu lá vou saber onde você colocou aquele troço! Vê se não tá na máquina de lavar.
—Santa ignorância! O que o meu telefone ia estar fazendo na lavanderia?
—Quando você encontrar aquela porcaria, eu vou dar um jeito nele. Vou fazer o mesmo que fiz com o controle remoto da TV.
—Nem me fala do controle da TV. Que idéia idiota a de colar ele na mesinha da sala!
—Pelo menos não perdeu mais, não derrubou e nem sentou de novo nele.
—É, mais quando eu ponho os pés na mesa acabo sempre aumentando o volume.
—Por que você não assiste TV com os pés na lata de lixo? O cheiro vai ser o mesmo.
—Cala tua boca véia!
—Barbosa, corre aqui, tem um bicho no armário.
—Se vira! Eu tô ocupado.
—É sério. Ele tá no pacote de Sucrilho.
—Dá uma chinelada. Joga pela janela, mas não me enche o saco! Tô ligando pra ele.
—Barbosa...
—Mais que inferno! Eu tô tentando ouvir o celular.
—Eu achei.
—Cadê?
—Na privada.
—O que ele tá fazendo na privada no meio de um monte de sucrilhos?
—Sei lá... Tá decidido. Tira essa coisa daí que eu vou amarrar ele na estante, assim você não perde mais!
—E a mobilidade?
—Você deixou a porta da gaiola aberta e ela fugiu, lembra?
—Aquilo era a maritaca. Deixa de ser burra! Eu estou dizendo, quando eu sair, quem atende o celular?
—Eu atendo e anoto o recado!
—E se for confidencial, o mula?
—Eu anoto na língua do “P” para que o segredo não caia em mãos inimigas... P-já P-che P-gou P-a P-su P-a P-po P-ma P-di P-nha P-pa P-ra P-he P-mo P-rói P-da!

sexta-feira, 26 de março de 2010

seu Barbosa e dona Roma - Metáfora - Alvaro Freitas

—Deus me livre! Esse bife é uma tábua!
—Não é, não! É alcatra!
—É uma metáfora, oh caquética!
—Só se o seu Miguel me enganou. Eu comprei como alcatra. Nem sabia que tinha carne com esse nome!
—Meu senhor protetor das velhas ignorantes, tenha pena dessa pobre jumenta!
—Credo, como você é grosso!
—Metáfora é quando você diz uma coisa que não é verdade, mas é como se fosse. Entendeu?
—Tipo quando você fala pros seus amigos que faz sexo quase todo dia?
—A culpa é mais sua do que minha!
—Do que? De metáfora ser a mesma coisa que mentida ou de você ser um velho broxa?
—E depois o grosso aqui sou eu!? Saiba você que eu dou os meus pulinhos por ai!
—Nossa! Que machão! Com quem, posso saber?
—Esse é um segredo que guardo a sete chaves!
—Segredo? Eu estou é com dó da dona “Metáfora”!
—Quem disse que é uma só? Eu sou homem para um harém!
—Hoje você tá é cheio de metáforas! Em, “garanhão”!?
—Sou mesmo! Se a gatinha bobear, eu logo ataco.
—A vizinha tá lá fora lavando a moto. Quero ver você ir até lá e “impressionar”!
—Você acha? Ela é moça de família!
—É... Só se for de família de quenga, isso sim! Vai lá e mostra o seu gingado que eu nunca mais te mando levar o lixo na rua.
—Saiba você que o trabalho dignifica o homem! — Me passa aquela faca mais afiadinha meu bem...

sexta-feira, 19 de março de 2010

Oxitoná - Alvaro Freitas

—Aceita um chá?
—Sim, obrigado.
—Então, o que o trouxe aqui?
—Sabe doutor. Eu tenho sentido uma angústia muito grande. Meu coração vive apertado. Tem noites que eu passo em claro só de pensar na minha situação.
—Camomila ou erva-doce?
—Camomila... — Respirei fundo e me acomodei melhor no divã enquanto observava o doutor, calmamente preparar duas xícaras de chá. — Antigamente, tudo era diferente. Eu me sentia mais valorizado, mais útil.
—Açúcar ou adoçante?
—Açúcar.
—Uma ou duas colheres?
—Deixe-me ver a colher, hum... Uma e um quarto, por favor.
—Aqui está!
—Desde o início da minha carreira eu sempre gostei de ser um oxitoná. Minha vida fazia sentido como tal. Eu podia ajudar os outros e contribuir para a minha empresa.
—Se importa se eu ascender um incenso?
—Pode ser de lavanda?
—Claro!
—Quando eu entrei nessa empresa, o meu gerente era um hiato. Ele era um ótimo profissional e trabalhava muito feliz, aliás, hiato é hiato. Por que não haveria de ser feliz.
—Quer que afaste um pouco o incensório?
—Um pouco mais para a direita... Assim está ótimo, obrigado.
—Por nada.
—O Hiato me deixava trabalhar a vontade. Como oxitoná, eu ia aos outros setores, propunha melhorias, ajudava na produtividade e fazia a empresa crescer junto com as necessidades de cada funcionário.
—Interessante!
—O trabalho de oxitoná?
—Não, a fumaça do incenso. Parece um jacaré.
—Um dia, um gerente de outra área — o Proparoxítono — foi promovido para diretor. Incomodado com o sucesso do nosso setor, demitiu o Hiato.
—Pobrezinho!
—Que nada! Ele logo arrumou um emprego melhor, pertinho da casa dele.
—Eu falei do jacaré. Olha só o que ele virou!
—Eu fiquei chocado pelo jacaré, isto é, pelo Hiato. Ele havia me ensinado muita coisa, principalmente, que eu deveria sempre defender meus ideais. — “Eu serei um hiato até o último dia da minha vida!” — Afirmava ele com a mão ao peito como que jurando à bandeira.
—Triste fim!
—Do jacaré?
—É!
—Mas, a vida tem que seguir seu rumo! Então eu continuei sendo, não mais uma oxitoná entre tantos outros, mas o oxitonô. E como fui...
—Quer que ligue o ar quente?
—Se preferir...
—Vou colocar só na ventilação.
—Mas o meu comportamento irritava o Paroxítono. Ele queria que eu mudasse, mas eu recusei. Eu tenho uma profissão a zelar!... O senhor está bem?
—A sim, claro. Só estou alongando minha úvula. Pode continuar!
—Para minha surpresa, o senhor Proparoxítono rapidamente desistiu de mim e promoveu um colega, o Paroxitôno. Rapaz bom e esperto, mas com uma característica que o tornava mais elegível do que eu. Ele era bem mais parecido com o Proparoxítono.
“Cof, cof, cof...” — Quer uma água?
—Não, obrigado. Sem querer engoli o São Benedito. Já estou bem.
—O Proparoxítono, chamou uma reunião com o nosso departamento e falou: “A partir de hoje, todos seremos proparoxítonas!” — Olhou para o meu recém empossado chefe e o alertou: “Lembre-se que quem paga o seu salário sou eu!” — O pobre rapaz não hesitou em concordar. O temível corsário, depositou seu olhar maligno sobre mim e perguntou: “Fui claro?”
—Está muito claro? Quer que apague o abajur?
—Não. Eu estava contando o que o Proparoxítono me falou.
—Há sim, claro. Nossa, quanto claro... Continue!
—A partir desse dia, o departamento inteiro passou a ser proparoxítona. Para o meu chefe, o Paroxitôno, virar paroxítona foi fácil. Mas para mim, um oxitonô, está sendo terrível. O senhor não vai cair daí?
—Não se preocupe, essa estante é bem resistente e eu sou bastante ágil.
—Já se passaram mais de dois anos. Ainda sinto saudade do tempo que cada um podia exercer o seu papel com orgulho. Eu era o oxitonô e trabalhava com o paroxitôno. Hoje, com a nova gramática, todos somos proparoxítonas, e a coisa vai de mal a pior.
—E como você se sente?
—Sinto que aquele não é mais o meu lugar. Sinto que sou uma oxítona inútil numa empresa que só quer saber de proparoxítonas, custe o que custar.
—Desculpe! Eu tinha perguntado para o jacaré da fumaça.
—A tá... O que o senhor, como profissional em gramática me recomenda?
—A gramática moderna é muito rígida. Cedo ou tarde vai ter que se acostumar. Enquanto você trabalhar nessa empresa, seja uma oxítona ou uma paroxítona, você sempre terá que se comportar como uma proparoxítona.
—Obrigado doutor pela consulta!
—Esse é o meu trabalho! Você comprou aquele remedinho que lhe mandei?
—Esse aqui?
—Este mesmo!! Dá um?

quarta-feira, 17 de março de 2010

A mosca - Alvaro Freitas

Hoje o dia está maravilhoso — quente e úmido como todo bom dia de verão deveria ser.
— Aquilo, que aquela enorme máquina retira do fundo do rio e vai empilhando nas suas margens, emana um apetitoso aroma de fartura. Toda aquela abundância de alimentos nos atraia como lâmpadas para mariposas. Ah, quantos parentes! Ah, quantos amigos! Graças a Deus e aos homens, essa fartura nunca há de se acabar.
Curtindo a sombra de uma faraônica árvore, dois gigantes se preparam para devorar suas presas que brutalmente sacaram de seus compartimentos.
—Será que aquilo que eles estão comento tá morto?
—Se não tiver, tanto faz. Olha o tamanho daquelas bocas!
—Um só deles seria capaz de engolir a minha família inteira sem mastigar!
Apesar de aquela cena nos dar medo e até um pouco de nojo, o que eles comiam nos seduzia de maneira incontrolável — se o tal manjar dos deuses existe, acho que é aquilo o que eles têm nas mãos.
Nós sabíamos que não precisávamos da comida deles. Estávamos fartos com toda a abundância que o Tietê nos oferece. Sabíamos também que nossos pais haviam nos ensinado a não nos aproximar de estranhos, principalmente enquanto comem, pois eles costumam ficar furiosos. Mas a fartura era muita. O que eles tinham naquelas malas era mais que suficiente para todos nós.
Porém, o egoísmo daquele dois era demais. Mal nos aproximamos e eles começaram a deflagrar violentos golpes contra nós, no vazio e até neles mesmos.
—O que eles pensam que estão fazendo? Para que tanta ignorância? Será que eles não percebem a descomunal força que têm?
—VAI COM CALMA AÍ OH GRANDÃO! — Gritei com toda a minha força, embora, para eles, parecesse ter sido só um zunido.
—Eles podem nos chamar do que quiser. Mas nós sabemos repartir o nosso alimento. Nós jamais negaríamos a um estranho o melhor lugar na nossa refeição.
—Ainda me lembro do dia que estávamos nos fartando e veio um deles, pegou a nossa carcaça e nem comer comeu. Abriu um buraco e a enterrou.
—Porque eles acham que os vermes merecem mais do que a gente?
—Inveja — só pode!
—E aí, vamos tentar de novo aquele lanchinho?
—Olha só! Enquanto estávamos aqui filosofando, aqueles brutamontes devoraram tudo e se mandaram.
—Oh vidinha besta a deles, hem?

sábado, 13 de março de 2010

seu Barbosa e dona Roma - Haiti - Alvaro Freitas

—Que horror o que aconteceu no Taiti, hem Barbosa?
—O tsunami?
—Véio ignorante! Passa o dia carregando jornal pra baixo e pra cima e não sabe do terremoto no Taiti!
—O que eu não sei é como fui casar com uma mula feito você, Roma! É Haiti. Com agá! Véia burra dos infernos!!
—Fique sabendo que eu ouvi no rádio do quarto que teve um terremoto no Taiti e que morreu mais de cem milhões de pessoas.
—Você tá é ficando surda! É Haiti com agá!
—Só se for em estrangeiro que se escreve Thaiti com agá.
—Você num lê o Estadão, lê? Então pronto! E tem mais, num morreu tudo isso não! No Haiti inteiro não tem cem milhões de pessoas pra morrer!
—Claro que não, o terremoto foi no Taiti! Morreu uns cento e cinqüenta milhões e ainda sobrou um tanto pra contar a história! O rádio do quarto não mente!
—O rádio do quarto só fala bobagem! O da sala que era bom! Depois que o Fabinho mexeu, ele só toca música de louco!
—Pra você, só é certo o que sai no jornal! Se eu não tivesse um véio porco pra cuidar, quem sabe eu tivesse tempo pra ler jornal.
—E você — surda do jeito que é — fica ouvindo o rádio da cozinha, que só fala desgraça, e fazendo comida; além de entender tudo às avessas, ainda erra na receita.
—Você que dê graças a Deus por ter uma mulher como eu... TIRA O PÉ DO SOFÁ DIABO!!
—Vai pro Taiti ver se eu não morri no terremoto! E não volta enquanto não me encontrar!
—Dá vontade mesmo de ir e continuar a luta da missionária Dorothy Stang. Coitada, morrer soterrada numa igreja. Ela não merecia!
—Nem eu! NEM EU!