Esse blog foi criado pelos alunos do professor Ricardo para divulgar os rascunhos literários.
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sexta-feira, 2 de abril de 2010

seu Barbosa e dona Roma – o celular - Alvaro Freitas


—ROMA, onde você colocou o meu celular?
—Eu lá vou saber onde você colocou aquele troço! Vê se não tá na máquina de lavar.
—Santa ignorância! O que o meu telefone ia estar fazendo na lavanderia?
—Quando você encontrar aquela porcaria, eu vou dar um jeito nele. Vou fazer o mesmo que fiz com o controle remoto da TV.
—Nem me fala do controle da TV. Que idéia idiota a de colar ele na mesinha da sala!
—Pelo menos não perdeu mais, não derrubou e nem sentou de novo nele.
—É, mais quando eu ponho os pés na mesa acabo sempre aumentando o volume.
—Por que você não assiste TV com os pés na lata de lixo? O cheiro vai ser o mesmo.
—Cala tua boca véia!
—Barbosa, corre aqui, tem um bicho no armário.
—Se vira! Eu tô ocupado.
—É sério. Ele tá no pacote de Sucrilho.
—Dá uma chinelada. Joga pela janela, mas não me enche o saco! Tô ligando pra ele.
—Barbosa...
—Mais que inferno! Eu tô tentando ouvir o celular.
—Eu achei.
—Cadê?
—Na privada.
—O que ele tá fazendo na privada no meio de um monte de sucrilhos?
—Sei lá... Tá decidido. Tira essa coisa daí que eu vou amarrar ele na estante, assim você não perde mais!
—E a mobilidade?
—Você deixou a porta da gaiola aberta e ela fugiu, lembra?
—Aquilo era a maritaca. Deixa de ser burra! Eu estou dizendo, quando eu sair, quem atende o celular?
—Eu atendo e anoto o recado!
—E se for confidencial, o mula?
—Eu anoto na língua do “P” para que o segredo não caia em mãos inimigas... P-já P-che P-gou P-a P-su P-a P-po P-ma P-di P-nha P-pa P-ra P-he P-mo P-rói P-da!

sexta-feira, 26 de março de 2010

seu Barbosa e dona Roma - Metáfora - Alvaro Freitas

—Deus me livre! Esse bife é uma tábua!
—Não é, não! É alcatra!
—É uma metáfora, oh caquética!
—Só se o seu Miguel me enganou. Eu comprei como alcatra. Nem sabia que tinha carne com esse nome!
—Meu senhor protetor das velhas ignorantes, tenha pena dessa pobre jumenta!
—Credo, como você é grosso!
—Metáfora é quando você diz uma coisa que não é verdade, mas é como se fosse. Entendeu?
—Tipo quando você fala pros seus amigos que faz sexo quase todo dia?
—A culpa é mais sua do que minha!
—Do que? De metáfora ser a mesma coisa que mentida ou de você ser um velho broxa?
—E depois o grosso aqui sou eu!? Saiba você que eu dou os meus pulinhos por ai!
—Nossa! Que machão! Com quem, posso saber?
—Esse é um segredo que guardo a sete chaves!
—Segredo? Eu estou é com dó da dona “Metáfora”!
—Quem disse que é uma só? Eu sou homem para um harém!
—Hoje você tá é cheio de metáforas! Em, “garanhão”!?
—Sou mesmo! Se a gatinha bobear, eu logo ataco.
—A vizinha tá lá fora lavando a moto. Quero ver você ir até lá e “impressionar”!
—Você acha? Ela é moça de família!
—É... Só se for de família de quenga, isso sim! Vai lá e mostra o seu gingado que eu nunca mais te mando levar o lixo na rua.
—Saiba você que o trabalho dignifica o homem! — Me passa aquela faca mais afiadinha meu bem...

sábado, 13 de março de 2010

seu Barbosa e dona Roma - Haiti - Alvaro Freitas

—Que horror o que aconteceu no Taiti, hem Barbosa?
—O tsunami?
—Véio ignorante! Passa o dia carregando jornal pra baixo e pra cima e não sabe do terremoto no Taiti!
—O que eu não sei é como fui casar com uma mula feito você, Roma! É Haiti. Com agá! Véia burra dos infernos!!
—Fique sabendo que eu ouvi no rádio do quarto que teve um terremoto no Taiti e que morreu mais de cem milhões de pessoas.
—Você tá é ficando surda! É Haiti com agá!
—Só se for em estrangeiro que se escreve Thaiti com agá.
—Você num lê o Estadão, lê? Então pronto! E tem mais, num morreu tudo isso não! No Haiti inteiro não tem cem milhões de pessoas pra morrer!
—Claro que não, o terremoto foi no Taiti! Morreu uns cento e cinqüenta milhões e ainda sobrou um tanto pra contar a história! O rádio do quarto não mente!
—O rádio do quarto só fala bobagem! O da sala que era bom! Depois que o Fabinho mexeu, ele só toca música de louco!
—Pra você, só é certo o que sai no jornal! Se eu não tivesse um véio porco pra cuidar, quem sabe eu tivesse tempo pra ler jornal.
—E você — surda do jeito que é — fica ouvindo o rádio da cozinha, que só fala desgraça, e fazendo comida; além de entender tudo às avessas, ainda erra na receita.
—Você que dê graças a Deus por ter uma mulher como eu... TIRA O PÉ DO SOFÁ DIABO!!
—Vai pro Taiti ver se eu não morri no terremoto! E não volta enquanto não me encontrar!
—Dá vontade mesmo de ir e continuar a luta da missionária Dorothy Stang. Coitada, morrer soterrada numa igreja. Ela não merecia!
—Nem eu! NEM EU!