Esse blog foi criado pelos alunos do professor Ricardo para divulgar os rascunhos literários.
Se desejar fazer parte, deixe uma mensagem com um exemplo do seu texto.
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domingo, 18 de julho de 2010

Nas Cruzadas - Alvaro Freitas

Pele tão escura, quanto claro é o turbante.
Alegria a irradiar por cada poro.
Joelhos na areia, mão, a tocar o céu.
Mãos na areia, fé a atingir o céu.
Amigos em comunhão a abraçar,
Mulher e filhos, com amor a beijar,
E em uníssono, um bom Deus a agradecer.

—Nunca vi tanta fé!
Tamanha façanha só poderia ter o dedo do criador.
—Nunca vi tanto agradecimento!
Tamanha graça só pode ter sido fruto de muita oração.
—Nunca vi tanto louvor!
Tantos fiéis orando pelo mesmo Deus.

Quisera tê-los conhecido antes.
Pudera tê-los entendido melhor.
Ousara ter dialogado um pouco.
Hoje o sol brilharia mais.

O silêncio que de súbito virou festa,
Vai aos poucos retomando o seu lugar.
O calor que ligeiro tomou meu peito,
Vai sem pressa escoando para a areia.

A luz do dia que sempre me guiou,
Vai perdendo seu brilho.
A noite fria que sempre me trouxe alento,
Vem desabrochando sem estrelas.

Que Deus poderoso e fiel é o deles,
Que atende aos pedidos do seu rebanho,
E vem a terra com eles comemorar?
Que Deus piedoso e gentil é o meu,
Que me guiou até tão longe do meu povo,
Só pra mostrar-se único?

Se não fosse pelo poder da lição.
Se não fosse pelo impacto da didática.
Estaria com eles a louvar nosso Deus.
Ignorando a lança que o crucifixo transpassou.

Precipício - Alvaro Freitas

Sentado a mais de quarenta anos de altura.
Olhos nos olhos e coração nas rochas.
Como dois bons e velhos inimigos, eles se encaravam.
Quem ousaria o primeiro passo?

A menos noventa graus de coragem,
Um corpo hesitante a tremer.
Com sua colossal imponência,
Paciente aguarda a derradeira decisão.
O sábio ancião, formado de pedras sobrepostas,
Muito já tinha visto e pouco contado.
E a pobre criança indefesa,
Embriagada com a total certeza,
Que somente os ignorantes têm.
Desafia seu inimigo salvador,
A uma batalha final.

De um lado, algumas gramas de covardia.
Do outro, muitas toneladas de bravura,
Separados por um passo e quinhentos metros de dúvida.
De cima, a lua contemplando a tragédia.
Tivera ela humor para rir.
Tivera ela coragem de saltar.

Ao ver a platéia aumentando,
Decidiu abreviar o momento.
E pela primeira vez na vida,
Reuniu toda a sua coragem,
Levantou, encheu o peito de ar,
E voltou para casa.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Haroldo e a Garota Legal

Haroldo é um viúvo de meia idade que vive só. É tímido e tem poucos amigos. Então resolveu virar um internauta. Não navegava para adquirir conhecimentos, mas em busca de novas amizades e quem sabe até de uma companheira. Seu hobby é entrar nas salas de bate papo e as vezes consegue marcar alguns encontros. Na internet convive com todo tipo de gente. Cordiais, mal educados, agressivos e aqueles que se aproveitam do anonimato para difamar mulheres.
Um dia, chegou cansado do trabalho e resolveu bater um papo antes de dormir. Era uma maneira de relaxar um pouco. Espiou algumas salas, leu algumas conversas e resolveu entrar nas salas dos 30/40 anos. Criou um apelido (nick) "Seu Amigo" e foi para a sala 2. Não costumava tomar a iniciativa, mas naquela noite resolveu arriscar e chamou algumas mulheres para um papo. Como não recebeu resposta, ficou colando algumas musicas, lendo o que os outros escreviam e já pensava em sair para dormir quando surgiu na tela um "Oi?"
Olhou para o nick, "Garota Legal", ela convidava para um papo. Pensou um pouco e ficou indeciso, se saía ou teclava, quando novamente...Boa noite. Tudo bem? Então resolveu responder. -Tudo e você? Tecla de onde?
Sou de Itajaí/SC, conhece? Ele ja havia estado por lá.
-Sim, é uma cidade praiana e você deve curtir muito essas belas praias. Falou tentando ser agradavel. -Não! Disse ela. Gostaria muito, mas não posso. Ele estranhou.
-Por que? Trabalha muito e não tem tempo ou o namorado é ciumento?
-Não é isso e não tenho namorado. Vivo presa a uma cadeira de rodas e quase não saio de casa.
Haroldo gelou, não esperava por aquela resposta. Ficou imóvel, confuso, olhando para a tela sem saber o que escrever. E ela continuou.
-Sabe, faço hemodiálise por que tenho problemas nos rins e minha única distração é a internet.
Voce está aonde? -Estou em São Paulo e seu caso não seria resolvido com um transplante de rins? -Sim, seria a solução. Mas, não tenho plano de saúde, estou na fila do SUS, mas ja perdi a esperança.
-Não! Não deve perder a esperança. Quantos anos você tem?
-Tenho 36 anos e como faço hemodiálise a tempo. Meus ossos estão fracos e ja quebrei a perna quatro vezes, por isso tenho que andar de cadeira de rodas.
-Você está esperando um transplante a muito tempo? -Sim! Estou a dezenove anos na fila.
Haroldo sentiu um aperto no coração. Ela teve problemas aos 17 anos e com certeza vai morrer antes que consiga um doador. Ele ficou muito triste e não conseguindo manter um diálogo, saiu. Justificou que tinha trabalhado muito e estava cansado. Ela se despediu com um beijo e ele ficou transtornado, com lagrimas nos olhos.
Não conseguiu dormir direito aquela noite, pensando nela. Achou muito cruel, uma jovem na flor da idade não poder desfrutar a vida e ter os sonhos bloqueados pela doença. Pensou em quantas pessoas estão sofrendo com o mesmo problema e no dia seguinte tomou uma decisão. Redigiu uma carta e entregou a seu filho. Nela estava escrito que ele autorizava que todos os seus orgãos fossem doados após seu falecimento. E ainda comentou. -Depois de morto não vou precisar deles.
Mas, sei que poderão trazer uma nova vida para algumas pessoas. E de alguma maneira continuarei vivendo...Haroldo tem razão.
Todos nos precisamos nos conscientizar da importancia da doação de orgãos, para que não tenhamos que conviver com casos como da "Garota Legal", essa pobre moça que um dia, sonhou em ser feliz e ter uma vida normal.
Jaf - Falcão Peregrino

domingo, 27 de junho de 2010

Analgésico - Alvaro Freitas

Tem coisas que quero, mas não tenho.
Tem coisas que tenho, mas não quero.
Não quero tremer, nem sofrer.
Não quero chorar, nem viver.

Se a justiça só me serve,
pra tolher a liberdade.
Quero então uma injustiça,
que me tenha piedade.

Se pelos crimes do inimigo,
tenho que ser acusado.
Preferia ter cometido os meus próprios,
pra não ser injustiçado.

Se a mentira do opressor,
vale mais do que a verdade.
Quero uma boa ficção,
pra evitar desigualdade.

Se não tenho uma amante,
que com carinho me toque a pele.
Quero ao menos um legista,
que com atenção me desmantele.

Se não tenho um bom Amigo,
que me ouça o lamento.
Quero ao menos um punhal,
que me tire o sofrimento.

Se não tenho um amor,
que me leve ao paraíso.
Quero então uma demência,
que me arruíne o juízo.

Se a doença que eu tenho,
não pode ser medicada.
Preferiria uma hemorragia,
que pudesse ser estancada.

Se não tem um analgésico,
que alivie a minha dor.
Quero então um precipício,
que me faça esse favor. 

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A Maldição de Barbosa

Ah! Nada como sentir essa brisa que vem do mar.
Ele estava sentado num banco do jardim da praia, distraido olhando para o mar e apreciando as crianças brincar na água. De repente ela surgiu trazendo o menino pela mão. Parou à frente dele e com voz grave e olhar de acusação disse.
-Filho! Este homem fez o Brasil inteiro chorar de tristeza.
Ele demorou alguns segundos para perceber que era com ele. Virou o rosto e olhou para ela que continuava com aquele olhar duro, de reprovação. Engoliu em seco e seu olhar de desanimo mostrava a amargura em seu coração. Preferiu o silencio, pois sabia que qualquer coisa que dissesse não ia mudar o pensamento dela. Ele era culpado e pronto!
A criança olhou para ele e depois para ela sem entender nada. Ela não se compadeceu e do mesmo jeito que chegou, saiu conduzindo seu filho.
Aquilo se tornara comum em sua vida. Por mais distante que fosse, não havia como fugir.
-Nunca vou conseguir me livrar disso. Parece que carrego uma maldição. Ele chorava em silêncio e um sentimento de revolta dominou seu corpo: sentiu vontade de gritar para o mundo.
-Eu não joguei sozinhooooooo. Havia mais dez além de mimmm.
Mas, sabia que não adiantava. Tinha sido julgado e condenado pela derrota do Brasil em 1950 e só a morte ia conseguir libertá-lo disso.
Com os cotovelos apoiados nos joelhos, colocou as duas mãos na cabeça. Era como se quizesse tirar tudo aquilo da mente, enquanto as lagrimas escorriam pelo rosto.
-Por que cometem essa injustiça comigo?
Eu era apenas mais um defensor daquela seleção. Ninguém lembra dos outros dez, somente eu sou lembrado. Um individuo mata outro, é julgado e condenado a 30 anos de cadeia. Depois desse tempo está livre e pagou pelo seu erro. Eu não!
Já se passaram mais de 50 anos e eu continuo pagando por um crime que não cometi.
-Perdemos, eu sei. Mas, e daí?
Já perdemos tantas outras copas por erros de jogador ou de técnico, mas ninguém lembra mais disso. Por que não esquecem de mim? Sai do Rio de Janeiro por que não aguentava mais. Vim morar aqui na Praia grande, onde pensei que encontraria a paz, mas não.
E a imprensa então! Toda vez que o Brasil joga com o Uruguai sou lembrado, não pelas defesas que fiz, mas por um gol que tomei. Um gol normal, indefensavel para qualquer goleiro. Menos para mim. E valorizam o atacante uruguaio que fez o gol. Ele sim foi nosso carrasco, não eu.
Depois de ouvir as palavras duras daquela mulher, Barbosa perdeu a vontade de ficar ali. Mais uma vez, alguém tinha estragado seu dia. O pior era o olhar daquela criança, que vai crescer e será mais um para condena-lo. A idade também já pesava em seus ombros e saiu caminhando devagar de volta para casa, pensando. Pelo menos lá não tem ninguém para me condenar, pois moro sozinho.
Um dia Barbosa foi retirado de nosso convivio, mas não se libertou. Mesmo morto, ainda paga pela perda do titulo. Foi um injustiçado, por isso devemos pelo menos reverenciar a memória do cidadão. Uma pessoa correta, amigo de todos e acima de tudo um homem integro. E que mesmo sendo agredido, nunca revidou os ataques contra ele. Acho que já passou da hora de apagar esse estigma da vida de Barbosa e lembrar somente do grande homem que foi.
É muito facil julgar os outros e acusa-los de erros. O dificil é criar consciência que essa atitude lembrada sempre, não trouxe nenhum beneficio para os brasileiros, mas conseguiu destruir a vida desse pobre cidadão chamado Barbosa.
JAF-Falcão Peregrino

sábado, 19 de junho de 2010

Máscara - Alvaro Freitas

Que gracinha, é a cara da mãe!
Carente, assustado e indefeso,
Estranho em um mundo estranho.
Achando ter escapado ileso,
Foi levado ao primeiro banho.

Menino, veste uma calça!
No calor intenso do verão,
Brincando todo empolgado,
Aprendeu uma boa lição,
Que não devia andar pelado.

Você tem que ouvir os mais velhos!
Tanta coisa a aprender,
E tão pouco a ensinar.
Como os velhos, há de ser.
E seu instinto ocultar.

Fala que nem homem, moleque!
Com a voz desafinada,
E a carinha de criança,
Fez uma voz disfarçada,
Pra merecer confiança.

Pra ocultar tantos defeitos.
E pros outros lhe aceitar.
Mais um monte de disfarces,
Ainda terá que usar.

Foram remendos, retoques e enxertos.
Uns a esconder suas vergonhas.
Outros, para parecer com seus pais.
Uns a esconder remendos antigos.
Outros, a substituir os que não combinavam mais.

Até que num belo dia,
Por pura curiosidade.
Trancado em seu banheiro,
Pra evitar cumplicidade.
E fixou-se no espelho,
Pra conhecer toda verdade.

Nem seu olho refletiu.
Tampouco, seu corpo encoberto.
Querendo poder, o original enxergar,
Cada uma das mascaras, decidiu arrancar.

Pra cada uma removida,
Tinha outra escondida.
Nosso herói desesperado,
Foi jogando todas de lado.

Foi com a última arrancada,
Que o espelho por fim revelou,
Que no banheiro não restava nada.

sábado, 12 de junho de 2010

A Andorinha - Alvaro Freitas

Oh tão perdida andorinha!
Que numa tarde gelada,
Por uma janela quebrada,
No escritório adentrou.

Quisera ser como eu!
Que num passado distante,
Em uma caçada errante,
Pelo umbral internou.

Oh tão ligeira andorinha!
Por entre setores diversos,
De chefes tão adversos.
Em poucos segundos passou.

Quisera ser como eu!
Ouvir, calar, engolir,
Inclusive, de tudo sorrir.
Teria ficado bem mais.

Oh tão astuta andorinha!
Que por todos convidada,
A partir em retirada,
Mas a ninguém se entregou.

Quisera ser como eu!
Apesar de enxotado,
Muitas vezes humilhado,
Nunca o posto entregou.

Oh tão ofegante andorinha!
Voando de lá para cá.
Deixou-se por fim apanhar,
Pelas garras da opressão.

Quisera ser como eu!
Fôlego das entranhas tirado,
Sem nunca parecer cansado,
Nem tampouco se entregar.

Oh tão derrotada andorinha!
Que das mãos do opressor,
Foi exposta sem louvor,
E pela janela atirada.

Quisera ser como eu!
Que sem conhecer o destino,
Nem tão pouco o assassino,
Ignoro a janela a porvir.

Oh tão livre andorinha!
A voar sem atropelo,
Nem lembrar do pesadelo,
Que um dia afrontou.

Quisera ser como eu!
E ainda no pesadelo estar,
Para quiçá um dia acordar,
E ver que a vida lá perdeu.

Oh tão invejada andorinha!
Se um dia ler esses versos,
Leia pelos anversos,
E perdoe a ignorância minha.

Se lhe servir de consolo,
Saiba que esse mesmo tolo,
Já se encontra bem cansado,
E num cantinho acuado,
Aguardando uma boa alma,
Pra da janela também me atirar,
E quem sabe poder te encontrar,
Na viagem a caminho do sol.