Esse blog foi criado pelos alunos do professor Ricardo para divulgar os rascunhos literários.
Se desejar fazer parte, deixe uma mensagem com um exemplo do seu texto.
________________________________________________________________________

sábado, 7 de agosto de 2010

Bate papo de bar

Estava a lavar meia dúzia de copos e a limpar o grande balcão, quando cinco senhores adentraram ao bar conversando sorridentes e descontraídos. Ao se aproximarem, de prontidão os atendi.

-Pois não, o que deseja?
Uma cerveja, por favor. - Disse Steve Jobs
-E você, caro senhor?
Uma dose de conhaque para mim está bem. - Anunciou Sherlock Holmes
-Ok.
Eu vou querer um copo de vinho tinto seco. - Se antecipou Sócrates
-Aqui está.
Uísque, por favor. – Falou Lord Henry
Companheiro, pra mim uma branquinha. – Solicitou Luiz Inácio
-Prontinho.
-Ah nada como uma boa cachaçinha do Brasil... você deveria experimentar companheiro Sherlock. Isso é que é bebida pra homem.
-Ah ha ha ha! Caro amigo Lula, imagine só. Tenho certeza de que as doses de conhaque são de maior valia durante as minhas investigações. Aquecem o pensamento e estimulam o raciocínio.
-E você companheiro Sócrates o que acha?
-Só sei que nada sei... seria um grande erro de minha parte julgá-las tendo como meios apenas os imprecisos sentidos humanos.
-Algum comentário Harry?
-Influenciar alguém seria dar à ela a própria alma. Ela passa a não pensar com os pensamentos naturais. As virtudes que possui deixam de ser, para elas, reais.
-Pois é isto que acho! A cachaça é sem dúvida a melhor. E quanto a você pigmeu, sempre em cima do muro. – disse Lula zombando de Sócrates.
Presumo que nosso amigo Holmes não precise de minha ajuda para parir uma opinião. Ele me parece muito bem dotado de inteligência para isso Mr. Luiz fingerless. – disse Sócrates retribuindo a gozação.
-Ah ha ha ha ha ha ha! Agora você foi longe demais companheiro Shrek.
-Oh deus! Temo que esta conversa tenha saído dos trilhos da boa educação senhores. Experimentemos outro assunto.

Nisso mais um homem chegou ao bar e todos o cumprimentaram com afeto.

-Olá senhores, como estão?
-Grande Gandih, meu amigo, sente-se, estamos a nos divertir com esses dois. – Disse Jobs
O que deseja beber senhor – perguntei simpaticamente.
-Filho, desejo apenas um suco de laranja. Está bem?
-Um minuto. Aqui está senhor.

Enquanto isso, eu, humilde garçom permanecia limpando, ou melhor, fingindo limpar o que tivesse por perto. Não queria perder sequer uma respiração. Nada. Qualquer sinal que pudesse denotar o nascimento de um brilhante raciocínio era importante.
Eu estava em companhia das maiores figuras desse mundo! Apreciava aquele diálogo e observava como eles até transpiravam certa futilidade diante de trivialidades como discutir a sobre cachaça.
Tomei a vassoura em mãos, e foi quando olhando de rabo de olho, vi Sherlock acendendo ao cachimbo e começando a refletir:

-Proponho um exercício meus caros. Vejamos até onde chega criatividade e poder de reflexão de cada um de vocês.
Definir é limitar! – Disse Lord Henry.
-Harry, vai ser divertido. Comecemos?
-Como funciona detetive?
-Simples, pensarão agora sobre a teoria das vidas paralelas... Ela diz que sempre que nos deparamos com uma bifurcação, duas vidas paralelas passam a co-existir, dessa forma, apesar do seu consciente optar por uma, seu subconsciente experimentou ambas. Assim, cada um de nós é ao mesmo tempo bandido e mocinho, vítima e culpado, telespectador e ator das melhores e piores coisas da vida...
O grande barato aqui é pensar nisso e refletir em voz alta para que todos possam acompanhar o trem da imaginação durante o caminho nos trilhos do pensamento. Mas, peço para que não contaminem a imaginação com o bom senso.
-Nossa! Realmente muito interessante sua proposta meu jovem, é um assunto nada trivial.
-Quem começa?
Eu – disse Jobs – Quero expressar-me sob a forma de poesia.
-Perfeito!

“Noites em branco, acordado pensando
esquerda ou direita
chocolate ou morango
preto ou branco?

pepsi ou coca
empresa ou escola
ouro ou copas
sabedoria ou bens

o que tens? O que fazeis? És tua a vez.

Como sereis? Diferente talvez,
cada escolha um caminho,
indivíduos distintos, infinitos destinos,

paralelos a caminhar, ao céu ou ao mar
sinos a tilintar no profundo da alma,
espere, tenha calma
tentar entender é fazer-se sofrer

Aproveite a maravilha,
você esta em sua própria companhia,
aqui ou lá, em cada lugar, você a atuar
e cabeça a completar o nem ela sabe se há”.

Todos aplaudiram, e sorrindo vi Jobs agradecer aos amigos. Empolgados, via cada um ter a face transformada pelas palavras que o poético Jobs acabara de dizer.

Após o pronunciamento do primeiro, logo vi se levantar o raquítico indiano envolto em um pano branco, e pedindo a palavra.
Sua presença de gigante transbordava inundando o ambiente o que paralisou até mesmo o relógio quando começou a falar:

-“Convenhamos que pensar em um Gandhi carnívoro e agressivo seja tão absurdo quanto pensar em um sol gelado, mas, há questões que me tiram o sono todos os dias.

Pensem comigo, só existe bifurcação se as opções são opostas, não seria bifurcação se elas fossem iguais. Correto. Além disso, uma coisa só passa a existir se for simultaneamente ao o seu oposto. Antes disso não há nada, nem partículas, nem tendências, nem existência. Partindo disso, fazer escolhas significa criar opostos. Escolher o bem significa criar o mal, então do que isso adianta? Do que adianta fazer escolhas e abrir abismos entre o bem e o mal?

Então, o que fazer? Essa é a questão...”.

-Puta que pariu! Essa foi de deixar todos calados – disse Lula

Fiquei perplexo e sem saber o que fazer, o que dizer, e até mesmo o que pensar. Como poderia assim, questões sem explicação como esta permanecerem com suas respostas perdidas onde a razão humana não é capaz de chegar...

Continua...

domingo, 1 de agosto de 2010

A ave do paraíso - Alvaro Freitas

Após uma longa espera, estava finalmente a caminho do tão merecido repouso. Uma casa no meio de uma chácara tão grande, que mesmo se estourasse a terceira guerra mundial, eu não tomaria conhecimento. Em uma montanha tão alta, que estando na ponta dos pés, quase era possível ouvir os sussurros dos anjos. Distante da humanidade o suficiente para nunca mais ter que ouvir nenhuma falsidade. Por outro lado, perto o suficiente para que em uma hora de carro, pudesse fazer as minhas compras e sacar a aposentadoria.
Caminhonete abarrotada até o teto com a mudança. Calor a ferver os miolos. O velha Ford precisava de um descanso. Mais do que uma sombra de árvore, precisávamos de um posto de serviço com gasolina, banheiro e uma cerveja gelada. No horizonte, detrás de uma muralha de pó, surgia algo que lembrava um posto de combustível.
—Prá morrer de sede, morro intoxicado!
Tinha uma bomba de combustível, um caminhão em estado de putrefação e um barraco, que com um pouco de criatividade, lembrava uma loja de conveniência.
—Olá! — gritei.
Quisera ter ouvido ao menos o eco me responder, mas ia ecoar aonde?
—Olá! Alguém? — fui me afastando do carro em direção à loja.
Chegando a porta da loja, deparei com uma espreguiçadeira com um velho morto. Morto também não, mais tão prestativo quanto se estivesse. Pela porta de tela, tive a maravilhosa visão de uma geladeira com uma marca estranha de cerveja na porta.
—Senhor!?
“É, está morto sim!” — pensei.
Fui até a geladeira e me servi da primeira garrafa que vi. Ela estava sedutoramente suada. Quando estava prestes a sair:
Três e cinqüenta! — alguém gritou com voz esganiçada.
Olhei para o velho. Tão morto quanto antes.
—Olá! Para quem eu pago? – perguntei como que para as paredes.
Deixa no balcão! — respondeu.
Cheguei mais perto do pré-cadáver e notei que ao seu lado tinha uma gaiola com o pássaro mais lindo que já havia visto.
—Só tenho nota de cinco! — disse só para ver de onde viria a resposta.
Pega o troco de bala! — disse o pássaro.
“Eu não podia acreditar. Treinaram o pássaro para tomar conta da loja.” — Pensei indignado.
—Com licença! — disse um jovem à porta. — Vai abastecer?
—Vou sim! Completa o tanque e verifica a água e o óleo.
—Com prazer.
Passado o delírio, sai atrás do jovem em direção a bomba.
Três e cinqüenta, SAFADO!
Deixei os cinco sobre o balcão e sai apressado, como que fugindo de uma alma penada.
—Quem ensinou aquela ave a falar? — perguntei ao garoto.
—É a “ave do paraíso” do vovô. Ela não fala não! Por quê? — perguntou intrigado.
—Nada, pensei ter ouvido.
Mais duas horas de viagem, finalmente cheguei na casa que seria meu derradeiro endereço. Silêncio e paz. Era tudo que eu queria. Ninguém mais para me enganar, nem me roubar. Definitivamente desisti das pessoas.
Durante toda a minha vida, somente deparei com pessoas aproveitadoras e desonestas. Nunca constituí família. Meus pais me abandonaram em um orfanato enquanto era um bebê. As pessoas que mais dediquei confiança, foram as que mais me traíram.
—Chega, agora sou só eu e Deus!
Apesar de toda a carga, alguns detalhes haviam faltado. Durante a semana preparei uma pequena lista, e no sábado, fui até a cidade pegar o faltante.
A história da ave não me saía da cabeça. Claro que ela falou comigo! Eu não estava louco!
Foi então que decidi voltar lá. Passei no posto e deixei o garoto abastecendo enquanto entrei na loja sob o pretexto de uma cerveja gelada.
Lá estava o velho dormindo de boca aberta e a ave me encarando.
—Bom dia amigo! — cumprimentei cismado.
Fala ai tio! — disse o pássaro.
Tentando bancar o menos idiota possível, decidi fazer uma pergunta mais complexa para ter certeza de que ele só havia sido treinado a responder o básico.
—Esse senhor é seu dono? — perguntei olhando-a nos olhos.
Não! É o meu funcionário. — respondeu. — É meio velho mas mantém minha gaiola limpa e minha água e comida sempre fresca.
—Você confia nele?
Não sou louco de confiar nos seres humanos.
—Sabe, sinceramente, nem eu. Eu desisti. São todos uns canalhas...
Subitamente, o rapaz entrou na loja.
—Mais alguma coisa que eu posso fazer pelo senhor? — indagou o frentista.
—Eu gostaria de comprar o pássaro.
—Ele é do vovô. Pergunte a ele!
Com carinho, o neto acordou o velho.
—Vovô, esse senhor gostaria de comprar a “ave do paraíso”!
O velho bocejou e coçou os olhos como se estivesse dormindo a anos. Ele me olhou e disse.
-Ele só é bonitinho. Se pensa que pode ensinar algum truque, esquece!
—Ele fala?
—Você deve estar querendo um papagaio. Eu posso conseguir um que canta o hino do Corinthians.
—Eu quero esse.
—Mas não fala!
—Quanto custa?
—Cinco mil!
—É meu!
E assim foi. Pela primeira vez em toda a minha vida eu tinha um amigo de verdade. E pela primeira vez, eu passei alguém para trás.
—Onde já se viu. Cinco mil e eu comprei o mais inteligente dos animais. Um profeta talvez. A idéia do profeta trouxe um arrepio sobrenatural a minha espinha. Então, me virei para ele, que estava no banco ao meu lado e perguntei.
—Você fala em nome de Deus?
Em silêncio ele consentiu. Então fomos em silêncio a viagem toda. Talvez pelo estresse da viagem ele parou de falar, apenas respondia sim ou não com a cabeça. Por semanas o nosso relacionamento foi apenas por gestos. Ele não me disse mais uma palavra sequer. Porém, o jeito com que me olhava, era o suficiente para esclarecer todas as dúvidas e anseios de toda a minha vida. Até que cogitei a hipótese de o poder de fala dele, de alguma maneira estar atrelado ao velho do posto de combustível.
Eu havia jurado para a ave e para mim mesmo que jamais falaria com mais nenhum homem. Mas a situação necessitava uma medida enérgica, então, deixei a gaiola bem abastecida e voltei a loja.
Ainda da estrada, pude ver uma estranha movimentação no posto. Uma viatura da polícia e uma ambulância. A tranqüilidade dos paramédicos me assustou. Estacionei de qualquer jeito e corri até a loja.
—O que aconteceu? — perguntei ao Policial.
—O ventríloquo morreu!

domingo, 18 de julho de 2010

Nas Cruzadas - Alvaro Freitas

Pele tão escura, quanto claro é o turbante.
Alegria a irradiar por cada poro.
Joelhos na areia, mão, a tocar o céu.
Mãos na areia, fé a atingir o céu.
Amigos em comunhão a abraçar,
Mulher e filhos, com amor a beijar,
E em uníssono, um bom Deus a agradecer.

—Nunca vi tanta fé!
Tamanha façanha só poderia ter o dedo do criador.
—Nunca vi tanto agradecimento!
Tamanha graça só pode ter sido fruto de muita oração.
—Nunca vi tanto louvor!
Tantos fiéis orando pelo mesmo Deus.

Quisera tê-los conhecido antes.
Pudera tê-los entendido melhor.
Ousara ter dialogado um pouco.
Hoje o sol brilharia mais.

O silêncio que de súbito virou festa,
Vai aos poucos retomando o seu lugar.
O calor que ligeiro tomou meu peito,
Vai sem pressa escoando para a areia.

A luz do dia que sempre me guiou,
Vai perdendo seu brilho.
A noite fria que sempre me trouxe alento,
Vem desabrochando sem estrelas.

Que Deus poderoso e fiel é o deles,
Que atende aos pedidos do seu rebanho,
E vem a terra com eles comemorar?
Que Deus piedoso e gentil é o meu,
Que me guiou até tão longe do meu povo,
Só pra mostrar-se único?

Se não fosse pelo poder da lição.
Se não fosse pelo impacto da didática.
Estaria com eles a louvar nosso Deus.
Ignorando a lança que o crucifixo transpassou.

Precipício - Alvaro Freitas

Sentado a mais de quarenta anos de altura.
Olhos nos olhos e coração nas rochas.
Como dois bons e velhos inimigos, eles se encaravam.
Quem ousaria o primeiro passo?

A menos noventa graus de coragem,
Um corpo hesitante a tremer.
Com sua colossal imponência,
Paciente aguarda a derradeira decisão.
O sábio ancião, formado de pedras sobrepostas,
Muito já tinha visto e pouco contado.
E a pobre criança indefesa,
Embriagada com a total certeza,
Que somente os ignorantes têm.
Desafia seu inimigo salvador,
A uma batalha final.

De um lado, algumas gramas de covardia.
Do outro, muitas toneladas de bravura,
Separados por um passo e quinhentos metros de dúvida.
De cima, a lua contemplando a tragédia.
Tivera ela humor para rir.
Tivera ela coragem de saltar.

Ao ver a platéia aumentando,
Decidiu abreviar o momento.
E pela primeira vez na vida,
Reuniu toda a sua coragem,
Levantou, encheu o peito de ar,
E voltou para casa.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Haroldo e a Garota Legal

Haroldo é um viúvo de meia idade que vive só. É tímido e tem poucos amigos. Então resolveu virar um internauta. Não navegava para adquirir conhecimentos, mas em busca de novas amizades e quem sabe até de uma companheira. Seu hobby é entrar nas salas de bate papo e as vezes consegue marcar alguns encontros. Na internet convive com todo tipo de gente. Cordiais, mal educados, agressivos e aqueles que se aproveitam do anonimato para difamar mulheres.
Um dia, chegou cansado do trabalho e resolveu bater um papo antes de dormir. Era uma maneira de relaxar um pouco. Espiou algumas salas, leu algumas conversas e resolveu entrar nas salas dos 30/40 anos. Criou um apelido (nick) "Seu Amigo" e foi para a sala 2. Não costumava tomar a iniciativa, mas naquela noite resolveu arriscar e chamou algumas mulheres para um papo. Como não recebeu resposta, ficou colando algumas musicas, lendo o que os outros escreviam e já pensava em sair para dormir quando surgiu na tela um "Oi?"
Olhou para o nick, "Garota Legal", ela convidava para um papo. Pensou um pouco e ficou indeciso, se saía ou teclava, quando novamente...Boa noite. Tudo bem? Então resolveu responder. -Tudo e você? Tecla de onde?
Sou de Itajaí/SC, conhece? Ele ja havia estado por lá.
-Sim, é uma cidade praiana e você deve curtir muito essas belas praias. Falou tentando ser agradavel. -Não! Disse ela. Gostaria muito, mas não posso. Ele estranhou.
-Por que? Trabalha muito e não tem tempo ou o namorado é ciumento?
-Não é isso e não tenho namorado. Vivo presa a uma cadeira de rodas e quase não saio de casa.
Haroldo gelou, não esperava por aquela resposta. Ficou imóvel, confuso, olhando para a tela sem saber o que escrever. E ela continuou.
-Sabe, faço hemodiálise por que tenho problemas nos rins e minha única distração é a internet.
Voce está aonde? -Estou em São Paulo e seu caso não seria resolvido com um transplante de rins? -Sim, seria a solução. Mas, não tenho plano de saúde, estou na fila do SUS, mas ja perdi a esperança.
-Não! Não deve perder a esperança. Quantos anos você tem?
-Tenho 36 anos e como faço hemodiálise a tempo. Meus ossos estão fracos e ja quebrei a perna quatro vezes, por isso tenho que andar de cadeira de rodas.
-Você está esperando um transplante a muito tempo? -Sim! Estou a dezenove anos na fila.
Haroldo sentiu um aperto no coração. Ela teve problemas aos 17 anos e com certeza vai morrer antes que consiga um doador. Ele ficou muito triste e não conseguindo manter um diálogo, saiu. Justificou que tinha trabalhado muito e estava cansado. Ela se despediu com um beijo e ele ficou transtornado, com lagrimas nos olhos.
Não conseguiu dormir direito aquela noite, pensando nela. Achou muito cruel, uma jovem na flor da idade não poder desfrutar a vida e ter os sonhos bloqueados pela doença. Pensou em quantas pessoas estão sofrendo com o mesmo problema e no dia seguinte tomou uma decisão. Redigiu uma carta e entregou a seu filho. Nela estava escrito que ele autorizava que todos os seus orgãos fossem doados após seu falecimento. E ainda comentou. -Depois de morto não vou precisar deles.
Mas, sei que poderão trazer uma nova vida para algumas pessoas. E de alguma maneira continuarei vivendo...Haroldo tem razão.
Todos nos precisamos nos conscientizar da importancia da doação de orgãos, para que não tenhamos que conviver com casos como da "Garota Legal", essa pobre moça que um dia, sonhou em ser feliz e ter uma vida normal.
Jaf - Falcão Peregrino

domingo, 27 de junho de 2010

Analgésico - Alvaro Freitas

Tem coisas que quero, mas não tenho.
Tem coisas que tenho, mas não quero.
Não quero tremer, nem sofrer.
Não quero chorar, nem viver.

Se a justiça só me serve,
pra tolher a liberdade.
Quero então uma injustiça,
que me tenha piedade.

Se pelos crimes do inimigo,
tenho que ser acusado.
Preferia ter cometido os meus próprios,
pra não ser injustiçado.

Se a mentira do opressor,
vale mais do que a verdade.
Quero uma boa ficção,
pra evitar desigualdade.

Se não tenho uma amante,
que com carinho me toque a pele.
Quero ao menos um legista,
que com atenção me desmantele.

Se não tenho um bom Amigo,
que me ouça o lamento.
Quero ao menos um punhal,
que me tire o sofrimento.

Se não tenho um amor,
que me leve ao paraíso.
Quero então uma demência,
que me arruíne o juízo.

Se a doença que eu tenho,
não pode ser medicada.
Preferiria uma hemorragia,
que pudesse ser estancada.

Se não tem um analgésico,
que alivie a minha dor.
Quero então um precipício,
que me faça esse favor. 

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A Maldição de Barbosa

Ah! Nada como sentir essa brisa que vem do mar.
Ele estava sentado num banco do jardim da praia, distraido olhando para o mar e apreciando as crianças brincar na água. De repente ela surgiu trazendo o menino pela mão. Parou à frente dele e com voz grave e olhar de acusação disse.
-Filho! Este homem fez o Brasil inteiro chorar de tristeza.
Ele demorou alguns segundos para perceber que era com ele. Virou o rosto e olhou para ela que continuava com aquele olhar duro, de reprovação. Engoliu em seco e seu olhar de desanimo mostrava a amargura em seu coração. Preferiu o silencio, pois sabia que qualquer coisa que dissesse não ia mudar o pensamento dela. Ele era culpado e pronto!
A criança olhou para ele e depois para ela sem entender nada. Ela não se compadeceu e do mesmo jeito que chegou, saiu conduzindo seu filho.
Aquilo se tornara comum em sua vida. Por mais distante que fosse, não havia como fugir.
-Nunca vou conseguir me livrar disso. Parece que carrego uma maldição. Ele chorava em silêncio e um sentimento de revolta dominou seu corpo: sentiu vontade de gritar para o mundo.
-Eu não joguei sozinhooooooo. Havia mais dez além de mimmm.
Mas, sabia que não adiantava. Tinha sido julgado e condenado pela derrota do Brasil em 1950 e só a morte ia conseguir libertá-lo disso.
Com os cotovelos apoiados nos joelhos, colocou as duas mãos na cabeça. Era como se quizesse tirar tudo aquilo da mente, enquanto as lagrimas escorriam pelo rosto.
-Por que cometem essa injustiça comigo?
Eu era apenas mais um defensor daquela seleção. Ninguém lembra dos outros dez, somente eu sou lembrado. Um individuo mata outro, é julgado e condenado a 30 anos de cadeia. Depois desse tempo está livre e pagou pelo seu erro. Eu não!
Já se passaram mais de 50 anos e eu continuo pagando por um crime que não cometi.
-Perdemos, eu sei. Mas, e daí?
Já perdemos tantas outras copas por erros de jogador ou de técnico, mas ninguém lembra mais disso. Por que não esquecem de mim? Sai do Rio de Janeiro por que não aguentava mais. Vim morar aqui na Praia grande, onde pensei que encontraria a paz, mas não.
E a imprensa então! Toda vez que o Brasil joga com o Uruguai sou lembrado, não pelas defesas que fiz, mas por um gol que tomei. Um gol normal, indefensavel para qualquer goleiro. Menos para mim. E valorizam o atacante uruguaio que fez o gol. Ele sim foi nosso carrasco, não eu.
Depois de ouvir as palavras duras daquela mulher, Barbosa perdeu a vontade de ficar ali. Mais uma vez, alguém tinha estragado seu dia. O pior era o olhar daquela criança, que vai crescer e será mais um para condena-lo. A idade também já pesava em seus ombros e saiu caminhando devagar de volta para casa, pensando. Pelo menos lá não tem ninguém para me condenar, pois moro sozinho.
Um dia Barbosa foi retirado de nosso convivio, mas não se libertou. Mesmo morto, ainda paga pela perda do titulo. Foi um injustiçado, por isso devemos pelo menos reverenciar a memória do cidadão. Uma pessoa correta, amigo de todos e acima de tudo um homem integro. E que mesmo sendo agredido, nunca revidou os ataques contra ele. Acho que já passou da hora de apagar esse estigma da vida de Barbosa e lembrar somente do grande homem que foi.
É muito facil julgar os outros e acusa-los de erros. O dificil é criar consciência que essa atitude lembrada sempre, não trouxe nenhum beneficio para os brasileiros, mas conseguiu destruir a vida desse pobre cidadão chamado Barbosa.
JAF-Falcão Peregrino